17.2.06

Batalha

Ele estava na dele. Depois da briga, não queria mais conversa. Tinha evitado esbarrar com ela pelos corredores da casa o dia todo. À tarde, dormiu no sofá, mesmo sem sono. Acordou, tomou um demorado banho e esperou até ouvir os passos dela se distanciando, indo da cozinha, onde sempre ficava, em direção ao quarto, onde ele não entraria tão cedo. Podia, assim, adiar por mais algumas horas o inevitável encontro. Mas apesar de todos seus esforços, agora se deparava com a curiosa situação. Não podia acreditar em seus olhos. Por que ela teria saído e deixado aquilo logo ali, na sua vista, exposto? Com certeza não foi por ingenuidade. Talvez fosse uma armadilha. Se ele colocasse a mão, luzes se acenderiam, um alarme soaria escandaloso e ela a olharia com o ar da vitória: 'Sim, você sucumbiu, eu sabia'.

É, depois dos últimos acontecimentos, era bem provável que ela tivesse planejado algo assim, não seria exagero algum considerar essa hipótese. Ele sentia que toda a cena tinha um quê de simbólica. Ela sabia o quanto ele gostava e precisava daquilo. Principalmente nesse momento, estando triste como estava. E, veja só, logo agora que a relação dos dois estava seriamente abalada, ela colocava ali, displicentemente, à sua vista, seu maior vício. 'Comprei especialmente para você', conseguia ouvir sua voz em tempos felizes, que se repetiria agora, não fosse aquela situação delicada que estavam atravessando. Não que ela própria também não gostasse, mas aquele já era um gesto pré-estabelecido para agradá-lo, ele sabia disso.

Ele não podia cair naquela amadora armadilha. Além do mais, ultimamente estava lutando bravamente para se livrar daquele vício. Tentou desviar o olhar, pensar em outras coisas, mas não conseguiu.

Talvez ela estivesse tentando comprá-lo, e ele não se venderia barato. Talvez fosse uma tentativa silenciosa de reaproximação, e ele queria distância. Ou talvez não fosse nada. Essa idéia era mais cômoda.

Não resistiu.

Abriu o pacote de biscoitos de chocolate e comeu quase tudo, deixando somente um na geladeira. Sua vitória não seria completa.